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08/01/2018 | 06:43 | Geral

O que revelam as malas dos cubanos vítimas de acidente de trânsito no RS

Grupo de Investigação da RBS (GDI) teve acesso aos pertences recolhidos pela Polícia Civil após colisão em Santa Vitória do Palmar, entre táxi que levava os viajantes rumo ao Chuí e Fiesta, na qual morreram quatro brasileiros e três caribenhos e um estrangeiro sobreviveu

Uma bandeira dos Estados Unidos e duas garrafas de rum Havana Club entre roupas e maços de cigarro (Mateus Bruxel / Agencia RBS)


As bagagens dos quatro cubanos que sofreram acidente de carro em Santa Vitória do Palmar em 1º de janeiro de 2018, no quilômetro 636 da BR-471, ajudam a contar detalhes da vida e dos planos de Reynaldo Delgado Díaz, 45 anos, Niurka García Roque, 46, Osmani Hidalgo Leyva, 21, mortos no choque, e do único sobrevivente caribenho, Armando Sosa Gonzalez, 24. Todos os pertences estão em posse da Delegacia de Polícia (DP) de Santa Vitória do Palmar. A busca que ajude a encontrar pistas é considerada fundamental tanto para finalizar tarefas mais burocráticas e sentimentais, como localizar familiares dos falecidos para a liberação dos corpos, quanto para concluir a investigação sobre a causa do acidente e o motivo da passagem do grupo pelo Brasil.


Os indicativos são de que os caribenhos, que tentavam chegar à cidade uruguaia de Chuy, não estavam na região a passeio, como parentes chegaram a informar, e que o planejamento da parada final das suas jornadas era os Estados Unidos. O Uruguai, onde pediriam refúgio, possivelmente seria uma plataforma temporária vista como facilitadora para chegar ao território norte-americano, que está cada vez mais fechando portas aos imigrantes. O país vizinho ao Brasil tem facilitado o visto para os EUA.


Depois de desembarcarem no Aeroporto Internacional Salgado Filho, vindos de Guarulhos (SP), os quatro cubanos não quiseram esperar pela saída de um ônibus da rodoviária de Porto Alegre. Tomaram um táxi do próprio aeroporto, que, em média, custa o dobro do coletivo intermunicipal, até a cidade brasileira de Chuí. Quando restavam cerca de 20 minutos para chegar à fronteira entre Brasil e Uruguai, o Cobalt em que estavam e um Fiesta de Santa Vitória do Palmar colidiram. Sete pessoas morreram: três cubanos e quatro brasileiros. Além de Armando, um segundo sobrevivente, este brasileiro, estava no Fiesta. No Cobalt, havia quatro malas grandes, duas mochilas e duas sacolas. Apesar da violência do choque, a maioria dos pertences está intacta.


Cubanos improvisaram banhos pelo caminho


Documentos, dinheiro, telefones, um notebook e outros eletrônicos, diplomas de formação profissional, pedidos de visto de turista aos Estados Unidos, lembranças familiares, roupas, itens de higiene, dezenas de maços de cigarro da marca cubana H. Upmann, duas garrafas do rum Havana Club, anotações sobre muitas pessoas de contato. Malas de uma longa jornada podem soar como um inventário da própria vida. Eram pessoas de fé: na maioria das bagagens havia artigos religiosos, incluindo duas sinetas. O sonho migratório era sinalizado por uma amarrotada toalha de banho com a bandeira americana estampada. Em uma travessia desde Havana até o Uruguai, com duração entre três e quatro dias, os viajantes tinham de improvisar banhos no caminho.


Armando, o sobrevivente que está internado na UTI da Santa Casa de Rio Grande em estado estável, carregava vasta documentação. Em sua bagagem, estavam as matrículas na Universidade de Matanzas, em Cuba, no curso de Química. Havia diploma de formação em culinária e um boletim escolar com a maioria das notas acima de nove. Também portava a carteira da União de Jovens Comunistas emitida quando ele tinha 15 anos.


Armando já havia tido, recentemente, um pedido de visto de turista e de visita a parentes negado pela embaixada dos Estados Unidos em Havana. Agora, tramitava nova solicitação dele para ingresso em solo americano, desta vez alegando "turismo e tratamento de saúde" como motivações para a viagem.


Costurada por dentro do forro da cueca, Armando levava a quantia de US$ 2 mil (cerca de R$ 6,4 mil). No total, ele portava em torno de US$ 3 mil (R$ 9,7 mil). Como os outros três cubanos não levavam quantias significativas, a investigação avalia isso como indício de que o sobrevivente era o administrador da verba do grupo.


Preparação para jornada exaustiva


O irmão de Armando, Adrián, vive e trabalha em Miami. Em contato com a Santa Casa de Rio Grande, disse que virá ao Brasil nos próximos dias para visitá-lo e para recolher bagagens. Não há, por enquanto, previsão de alta hospitalar do irmão devido ao quadro de politraumatismo.


As malas mostram que os cubanos estavam preparados para uma jornada exaustiva. Havia dezenas, talvez mais do que uma centena, de cartelas de remédios para ansiedade (clordiazepóxido), dores e febre (dipirona), problemas cardiovasculares (verapamilo) e infecções (amoxicilina).


Em uma das bagagens, também havia um conteúdo desconhecido de cerca de 200 gramas: sete pequenos tabletes com aspecto de gesso, semelhantes a bolachas, e aroma levemente adocicado.


O delegado Adam Lauxen, titular da DP de Santa Vitória do Palmar, irá remeter à perícia em busca de esclarecimento.


Reynaldo e Niurka, ambos cubanos de Matanzas, eram casados. Os dois tinham diplomas de formação gastronômica e portavam certidões de antecedentes criminais indicando que suas fichas eram limpas. Ela tinha uma caderneta de reflexões em que lamentava o bloqueio econômico a Cuba, além de uma citação a Camilo Cienfuegos, um dos heróis da Revolução Cubana, morto em acidente aéreo pouco tempo após a tomada de poder na ilha, em 1959. Reynaldo e Niurka tinham encaminhado, em outubro de 2017, pedidos de visto americano de não imigrante. A alegação era "turismo e tratamento médico". Eles informavam que teriam um hospedeiro em Jacksonville, cidade da Flórida, onde reside um irmão de Reynaldo. Para ajudar na questão do idioma, um brasileiro que vive em Miami fez contato com a Santa Casa de Rio Grande para tratar da remoção dos corpos dos dois. Ele informou ser amigo do irmão de Niurka, que também está nos Estados Unidos.


— Tendo em vista todo esse material, observando os pedidos de visto, os parentes que já estão nos Estados Unidos, possivelmente os aguardando (os acidentados), tudo indica que o Uruguai seria uma rota para chegarem aos Estados Unidos — afirma o delegado Lauxen.


O cubano do qual menos há informação é Osmani Hidalgo Leyva. Mais jovem do grupo, ele viajava sentado no banco do carona do Cobalt, onde o impacto foi mais forte. Restou em nome dele um bilhete de passagem aérea da Latam entre Manaus e Guarulhos, no dia 31 de dezembro de 2017. A previsão de desembarque para depois das 21h indica que o grupo passou o Réveillon no aeroporto, local de onde partiram horas depois.


Osmani carregava a fotografia de uma jovem que traz, no verso, um recado que o lembrava das raízes na sua terra natal: 


"Esto es para cuando tus ojos no me puedan ver. Tu corazón me recuerde. Te amo. Elianis." (Isto é para quando teus olhos não puderem me ver. Que teu coração se lembre de mim. Eu te amo. Elianis).


Quem são as vítimas


Dos passageiros do carro, três morreram e um sofreu politraumatismo, mas sobreviveu


Reynaldo Delgado Díaz


Aos 45 anos, era casado com Niurka García Roque. Era confeiteiro e padeiro. De um relacionamento anterior, deixou um filho. Seu corpo está no IML de Rio Grande desde a noite da última segunda-feira.


Niurka García Roque


Tinha 46 anos. Casada com Reynaldo, tinha formação e experiência em confeitaria. De um relacionamento passado, tinha três filhos: de 18, 19 e 30 anos, todos moradores de Miami, atualmente. Seu corpo está no IML de Rio Grande.


Osmani Hidalgo Leyva


As informações são escassas a respeito do jovem de 21 anos, última vítima fatal que estava no Cobalt. Os contatados até agora afirmam não conhecê-lo, e seus familiares ou amigos não o procuraram. O corpo segue no IML de Rio Grande.


Armando Sosa Gonzalez


Único sobrevivente entre os cubanos, o rapaz de 24 anos está na UTI da Santa Casa de Rio Grande em estado regular. Está lúcido, recuperando os movimentos, mas não há previsão de alta devido ao politraumatismo.


 

Fonte: Gaúcha ZH

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